Televisão Digital Educativa

Modelagem de Conteúdos Interativos | Prof. Dr. Francisco Rolfsen Belda

Modelos de comunicação 

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Modelos são geralmente definidos como representações simbólicas e esquemáticas de um objeto, processo ou idéia. Empregam fórmulas gráficas, verbais ou matemáticas para abstrair e descrever, simplificadamente, aspectos estruturais e dinâmicos de objetos, eventos e formas de pensamento e discurso. Por empregarem, sempre, algum formalismo em termos de linguagem ou notação, modelos são analógicos e devem ser interpretados à luz dos códigos semânticos utilizados na representação e de seu recorte sobre um determinado universo. Conforme aponta Littlejohn[1] (1998 apud FREIXO, 2006, p.18), “o construtor do modelo tenta estabelecer paralelos simbólicos entre estruturas e relações no modelo e aqueles que estão presentes no evento ou processo representado”. Ou, na visão de McQuail e Windahl[2] (2003 apud FREIXO, 2006, p.18) “um modelo procura mostrar os principais elementos de qualquer estrutura ou processo e as relações entre esses elementos”.

No campo da engenharia de software, a modelagem é uma das atividades que compõem o arcabouço de processo genérico para o desenvolvimento de aplicações computacionais, antecedida, seqüencialmente, pelas práticas de comunicação e planejamento e sucedida pelas de construção e implantação do sistema, conforme indica Pressman (2006). Essa atividade divide-se entre ações de análise, voltadas à especificação de requisitos, e de projeto, voltadas à arquitetura, à interface e aos componentes do sistema. Para Booch et al. (1999), a modelagem constitui instrumento de documentação sobre os critérios envolvidos no desenvolvimento de um sistema, especificando a estrutura e o comportamento de seus componentes, guiando sua reprodução em aplicações equivalentes ou servindo como facilitador da divulgação do modelo para grupos heterogêneos de trabalho. Dessa forma, um modelo de análise pode basear-se em um ou mais modos de representação, ampliando as perspectivas de visualização do sistema tratado (PRESSMAN, 2006). Tem-se que quanto mais amplos e diversos forem os modos de representação do sistema, menos omissões, inconsistências e ambigüidades devem ocorrer em sua modelagem e, conseqüentemente, em sua implantação.

Diferentemente de teorias, modelos não são propostos como forma de explicar a realidade. Segundo Freixo (2006), sua função é de tipo organizacional. Sua proposta é fornecer uma visão mais ampla e que premita a compreensão básica daquilo que se quer representar. É uma imagem parorâmica capaz de capturar diversas circunstâncias particulares que caracterizam um aspecto da realidade. Nesse sentido, diz o autor, modelos também podem ajudar a explicar, simplificando aspectos complexos de uma teoria, por exemplo. Outra função seria a de subsidiar previsões sobre conclusões conceituais, o curso de eventos ou o comportamento de objetos e sistemas, em sentido probabilístico. Pode-se dizer que um modelo é tão mais complexo quanto mais rigorosa, em termos formais, for a linguagem utilizada em sua representação (VERNADAT, 1996). Sob essa ótica, modelos em linguagem natural são mais simples e modelos matemáticos, mais complexos. Nesse entremeio, podem ser citadas também linguagens de modelagem baseadas em símbolos, gráficos, diagramas ou códigos de lógica computacional com seus respectivos critérios sintáticos e semânticos.

Rozenfeld e Amaral (2001) notam que, por fornecerem uma visão sistêmica dos processos, modelos são especialmente úteis como instrumentos de contextualização sobre algumas classes de conhecimentos, tais como registros documentais e regras enunciadas na forma de setenças referentes ao funcionamento de um processo. Um modelo permite, nesse sentido, que seu usuário navegue entre essas diferentes instâncias de conhecimento, rastreando informações de seu interesse em meio a elementos inter-relacionados do modelo. Como fundamentação da proposta de uma arquitetura para o registro de conhecimentos do processo de desenvolvimento de produtos, esses autores caracterizam diversas formas de representação de conhecimentos explícitos, tais como mapas de conhecimento, narrativas, linguagens estruturadas, regras, ontologias e modelos de referência, além dos mais comumente utilizados livros, documentos, sistemas corporativos e bases de dados.

O uso de modelos de referência para a sistematização de conhecimentos sobre a estrutura de conteúdos audiovisuais interativos é de particular interesse para este trabalho. Para Vernadat (1996), um modelo de referência pode ser definido como um modelo parcial, não complemente instanciado, concebido para ser usado como base para o desenvolvimento de outros modelos, ou como parâmetro para uma avaliação comparativa, ou ainda como um modelo padrão e genérico a partir do qual outros, particulares, possam ser derivados. Nas últimas décadas, o uso de modelos de referência como instrumento de gestão de conhecimentos tem se intensificado em ambientes corporativos (SCHEER, 1995; FETTKE, LOSS, 2006), sobretudo como forma de organizar conhecimentos que representem o conjunto de inteligência de uma organização, com vistas a um processo contínuo de aprimoramento e aprendizagem coletiva, em conformidade com o conceito de learning organization, isto é, organizações capazes de aprender e evoluir com suas práticas (SILINS, MULFORD, 2002).

Apesar das distinções formais existentes entre esses diferentes campos de aplicação das técnicas de modelagem, com suas diversas linguagens e métodos de notação, sustenta-se neste trabalho que os processos e conteúdos relacionados às atividades de comunicação e educação podem encontrar nas técnicas de modelagem um elemento essencial para representação sistematizada das estruturas e inter-relações que os caracterizam, considerando a interação simbólica mantida por meio dos fluxos de informação e das práticas colaborativas de produção.

Modelagens sobre as novas comunicações

Freixo (2006) apresenta uma análise retrospectiva e bem fundamentada em torno dos principais modelos de comunicação desenvolvidos e aplicados ao longo do século passado, com atenção especial à mídia televisiva e às relações interativas de comunicação. Há, para o autor, dois grandes grupos de modelos de comunicação: a) os que a caracterizam como um fenômeno linear, como um fluxo unidirecional de mensagens entre dois pontos e em sentido único; e b) os que a caracterizam como um fenômeno cibernético, como um fluxo circular, bi ou multi-direcional, incluindo os modelos de comunicação interpessoal, de massas e de concepção sócio-culturalista.

O primeiro grupo de modelos, fundado na representação matemática da informação proposta pela teoria de Shannon e Weaver, mostra-se eficiente na descrição da passagem de uma máxima quantidade de informações através de um canal de forma a minimizar sua distorção ou ruído considerando a economia de tempo e energia, mas não representa igualmente bem fluxos comunicacionais interativos, em que há retroalimentação do pólo emissor a partir da comunicação dialógica com o receptor.

Os modelos de base cibernética são considerados mais apropriados para a descrição de intercâmbios de conteúdo, na medida em que contemplam os conceitos de regulação, controle e realimentação a que estão sujeitas as informações em um processo de comunicação, considerado não como uma transmissão previsível de informações entre dois pólos, mas como uma ação de aspecto circular, interpretativo e na qual emissor e receptor têm papéis sobrepostos ou concêntricos. Não há transmissão apenas, mas transformação de informações em meio a uma mediação ativa e não neutra em relação às mensagens intercambiadas, que podem ser combinadas, selecionadas e alteradas de modo a assumir sentidos diversos do original.

Conceituados originalmente como descritores das formas de comunicação interpessoal, esses modelos são empregados também como representações esquemáticas dos processos de comunicação de massa, considerando a transformação das mensagens como novas percepções geradas a partir de composições possíveis sobre os elementos de estrutura e conteúdo, a diversidade de percursos seguidos por mensagens idênticas ao serem difundidas massificadamente entre grupos diversos de audiência, além da influência das formas de percepção humana, dos contextos sociais e do meio ou suporte midiático na composição das mensagens – conforme contribuições associadas respectivamente aos modelos propostos por Gerbner, Schramm e McLuhan (McQUAIL, WINDAHL, 2003 apud FREIXO, 2006).

Um modelo de comunicação que pode ser tomado como representação geral por unificar grande parte dessas contribuições é proposto por Maletzke, que considera uma série de variáveis específicas que incidem sobre o relacionamento dinâmico mantido pelos comunicadores com o meio e a mensagem envolvidos no processo, tais como a seleção de conteúdos, a estrutura da mensagem, a imagem recíproca entre receptor e comunicador, o ambiente em que se inserem, o caráter público ou privado do conteúdo e a espontaneidade do feedback proporcionado, entre outras, conforme sintetizado na Figura 2. Por ser bastante detalhado, este é considerado um modelo particularmente propício para aplicação em atividades de controle e análise das partes ou segmentos do processo comunicativo, abrangendo tanto aspectos sociológicos quando psicológicos da comunicação.

Figura 2. Modelo de comunicação de Maletzke

Fonte. Mcquail e Windahl[3] (2003 apud FREIXO, 2006, p. 362)

Seguindo esta revisão de modelos de referência, McQuail e Windahl[4] (2003 apud FREIXO, 2006, p.368) apresentam ainda uma representação esquemática voltada a descrever o processo de aprendizagem a partir da recepção de informações provenientes dos meios de comunicação de massa, o que chamam de um “modelo de transição da aprendizagem através da notícia”. São caracterizadas fases seqüenciais por que passa um conteúdo apresentado ao longo de sua exposição, processamento, compreensão e recordação até ser consolidado como um conhecimento adquirido pelo telespectador. Nota-se que a probabilidade de processamento das informações recebidas está sujeita a fatores como o grau de estímulo proporcionado pela fonte emissora e a atenção seletiva dispensada a elas pelo receptor; enquanto a compreensão depende de fatores referentes ao próprio conteúdo, sua forma de apresentação, além do contexto e da recepção, incluindo-se aí o grau de clareza, simplicidade, repetição e a combinação de linguagens associadas a sentidos cognitivos variados.

Essa representação baseia-se, em parte, em uma proposta de Comstock et al.[5] (1978 apud FREIXO, 2006) que tem o objetivo de sintetizar o conhecimento dos efeitos da televisão sobre o comportamento individual, de forma a refletir em parte as formas de assimilação de conteúdos educativos em situações de aprendizagem informal ou não-formal. O modelo propõe que a aprendizagem gerada a partir de um conteúdo (acto televisivo) é tanto maior quanto mais importante (saliente) for, para o indivíduo, a motivação (despertar) gerada pela comunicação e, também, quanto mais próxima (proeminente) for a ação representada na tela em relação a seu próprio repertório de conhecimentos. Quando essa identificação é bem-sucedida, tem-se um pacto televisivo. Saliência e despertar seriam condições necessárias para que a aprendizagem televisiva ocorra, e a proeminência determinaria a intensidade dessa assimilação, conforme iluistra a Figura 3.

Figura 3. Modelo psicológico da comunicação

Fonte. Comstock et al.[6] (1978 apud FREIXO, 2006, p.371)

Esses modelos de comunicação interativa podem ainda ter os sistemas de informação que descrevem representados a partir de duas bases tecnológicas fundamentais: as das redes de telecomunicações e de internet. Laudon e Laudon (1999) introduzem uma caracterização desses sistemas a partir da identificação de seus componentes (computador, processadores, canais, software, terminais e softwares), meios de transmissão (cabos, fibra óptica, microondas, satélites) e topologia de rede (estrela, barramento, anel), entre outros quesitos. A partir deles podem ser descritas infra-estruturas genéricas que suportam aplicações tais como viodeconferência, acesso a informações sob demanda, correio eletrônico audiovisual, entre outros.

Apesar das características de circularidade já previstas e introduzidas nos primeiros modelos de comunicação inspirados no paradigma cibernético, é o desenvolvimento e a disseminação da internet que revelam, de forma mais evidente, a insuficiência dos modelos convencionais de comunicação para a descrição dos novos processos de interacionismo simbólico e comunicacional. A própria forma visual básica dos esquemas usados para representar a infra-estrutura do processo da comunicação seria radicalmente transformada. Surge e consolida-se o esquema de uma “rede interligada de redes” (LAUDON; LAUDON, 1999, p.169), na qual um vínculo principal de conexão de alta velocidade (backbone) interliga computadores (host) que propiciam o acesso aos terminais de redes locais, não apenas com uma linearidade entrecruzada por canais específicos de realimentação, mas com ligações efetivas capilarizadas em todos os extremos da rede.

Perspectivas de interação

A proximidade e a semelhança entre as ações retratadas nos conteúdos televisivos e a realidade efetivamente vivenciada pelo público parecem ser fatores capazes de potencializar a assimilação desses conteúdos em uma perspectiva educativa. Mensagens de trânsito espontâneo, inspiradas em práticas de comunicação interpessoal e com as quais a audiência se identifique conferem maior grau de realismo e senso de representação comunitária, a exemplo dos aspectos que norteiam a configuração das redes sociais de aprendizagem e, de certo modo, também algumas experiências recentes com trocas de mensagens instantâneas e interpessoais de texto e vídeo como ferramenta de interação comunicacional, freqüentemente descritas em torno do conceito de comunicação viral (LIPMANN; REED, 2003).

É de interesse desta pesquisa compreender até que ponto e de que forma esses novos meios e tecnologias de comunicação que realizam o projeto cibernético podem concretizar seu potencial educativo, não apenas em função da interação que proporcionam no âmbito do tráfego de conteúdos e dados através do canal midiático, mas também a partir das representações significativas expressas nas mensagens veiculadas. É possível apontar insuficiências na capacidade descritivas desses modelos convencionalmente adotados para representar o processo comunicativo em vários de seus principais elementos, na medida em que se passa a compreender novos aspectos a eles relecionados, quais sejam:

  • Meio ou canal: deixa de ser uni ou mesmo bi-direcional e passa a ser multidirecional, com intercâmbio de conteúdos a partir de e para diferentes capilares em uma rede interconectada;
  • Mensagem: deixa de ser um produto acabado a ser transmitido e recebido com o mesmo formato e passa a ter sua composição definida no ato de recepção conforme vinculações seletivas e alternativas de conteúdo;
  • Emissor: deixa de ser caracterizado como uma fonte única a partir da qual a programação é gerada e passa a ser um conjunto de fontes dispersas que retroalimentam uma programação central gerada de modo participativo;
  • Receptor: deixa de ser anônimo, tanto por poder interferir na e protagonizar a composição da programação quanto por poder ter suas preferências individuais ou comunitárias consideradas como critério para filtragem e costumização da programação;

De forma geral, ainda seria possível considerar uma transformação provocada por essas novas mídias sobre a noção de ruído, elemento significativo que faz parte da maioria dos modelos introduzidos nas últimas décadas, considerando que eventuais distorções informativas de conteúdo (uma forma de ruído de natureza semântica, conceitual ou referencial, por exemplo) passam a ser objeto de um controle coletivo e dinâmico retido pela própria comunidade de audiência, por meio de novos sistemas de aferição de audiência, com comentários, recomendações ou reprovações dos espectadores sobre a programação.

Se considerarmos, com Freixo (2006, p.188), que a comunicação pode ser definida como a “capacidade que um indivíduo ou um grupo possuem em transmitirem as suas idéias ou sentimentos a outros indivíduos e a outros grupos e, em sentido inverso, de receber as ideias e os sentimentos dos outros indivíduos e grupos”, pode-se reconhecer que, independentemente dos recursos computacionais que preveja ou considere, um modelo inovador para o uso educativo da televisão digital como instrumento de interatividade deva contemplar cinco características ou quesitos relacionados a seus aspectos comunicacionais:

  • Interpessoalidade: definida pela percepção mútua dos sujeitos;
  • Comunitarismo: sentido de grupo, com interdependências e influências comuns;
  • Informalidade: dimensão espontânea e contextualizada em ações cotidianas;
  • Horizontalidade: posicionamento não-hierárquico entre representantes de diferentes grupos envolvidos;
  • Lógica de rede: fluxos de informação circulares, transversais e com conexões múltiplas, em geral com reduzido nível de centralidade.

[1] LITTLEJOHN, S.W.  Fundamentos teóricos da comunicação humana.  Rio de Janeiro: Guanabara, 1988.

[2] MCQUAIL, D.; WILNDAHL, S.  Modelos de comunicação: para o estudo da comunicação de massas.  Lisboa: Notícias, 2003.

[3] MCQUAIL, D.; WILNDAHL, S.  Modelos de comunicação: para o estudo da comunicação de massas.  Lisboa: Notícias, 2003.

[4] Idem.

[5] COMSTOCK, G. et al. Television and human behavior.  New York: Columbia University Press, 1978.

[6] COMSTOCK, G. et al. Television and human behavior.  New York: Columbia University Press, 1978.

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Written by Francisco Rolfsen Belda

22/09/2010 às 04:37

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