Televisão Digital Educativa

Modelagem de Conteúdos Interativos | Prof. Dr. Francisco Rolfsen Belda

TV e educação à distância 

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O desafio de expandir a educação profissionalizante e de nível superior no contexto nas economias urbanas e industriais, ao longo do século 20, foi freqüentemente comparado ao modelo de produção em massa das fábricas, com influência sobre o projeto curricular, instrucional e avaliativo das escolas (NUNES, 2008). Mesmo com as novas mídias, a demanda por expansão e universalização do ensino de jovens e adultos permanece um desafio. Porém, mais do que a difusão de informações, conceitos e competências em sentido utilitarista, a educação científica e tecnológica contemporânea requer contextos significativos de conhecimento e práticas colaborativas que levem o estudante a pensar, representar e resolver seus próprios problemas (FREIRE, 1967), independentemente do espaço e do tempo de aprendizagem.

Nas últimas décadas, pesquisadores têm examinado com enfoque interdisciplinar as formas de educação significativa através dos meios de comunicação de massa, dos quais a televisão seja talvez o mais célebre. O processo de digitalização intensificou os estudos na área e ainda se está longe de uma caracterização precisa do que acontecerá com as tecnologias de televisão e internet nos próximos anos. De que maneira esses suportes poderão ser combinados para difundir e produzir conhecimento? O que se pode aprender com a evolução de outras modalidades de educação não-presencial? Como se organiza um processo de produção de conteúdo para mídias interativas e convergentes? Como combinar formatos, categorizar acervos, definir metadados e sincronizar informações e serviços televisivos de apoio à aprendizagem? São todas elas questões em aberto.

As primeiras iniciativas de EAD são identificadas com a oferta de aulas particulares por correspondência, anunciadas, por exemplo, em um jornal de Boston, nos Estados Unidos, ainda em 1728 (NUNES, 2008). Cursos regulares nessa modalidade são oferecidos na Inglaterra desde em meados do século 19 e chegam ao Brasil pouco antes da virada do século, através de anúncios publicados no Jornal do Brasil (MOREIRA ALVES, 2008). Em plano internacional, a produção e transmissão de conteúdo educativo por radiodifusão têm início em 1928, pela BBC (NUNES, 2008). No Brasil, a rádio educativa do então Ministério da Educação e Cultura (MEC) surgiria sete anos depois, já revelando uma redução temporal no gap tecnológico do país em relação à Europa e aos Estados Unidos, onde as transmissões educativas de rádio começaram no início da década de 1930 (BUCK, 2006). Os conteúdos voltados à educação secundária e superior logo se disseminaram por países como Canadá, Austrália, México, Coréia do Sul, Ilhas Canárias, Índia, Costa Rica, Venezuela e China, além de Espanha, França e Alemanha (MOREIRA ALVES, 2008).

Mas foi o surgimento da televisão, implantada no Brasil em setembro de 1950, que criou um meio de disseminação de conteúdos educativos audiovisuais em larga escala, fora do ambiente escolar. A tecnologia de televisão foi criada com base em um sistema mecânico inventado pelo alemão Paul Nipkow, em 1884, que seria aprimorado no final da década de 1920, tornando possível a transmissão e a recepção de imagens. A posterior substituição do sistema mecânico por um meio eletrônico de esquadrinhamento de imagens foi o que deu impulso a essa tecnologia, lançada em larga escala a partir dos laboratórios da RCA (BRIGGS; BURKE, 2004). Antes, em 1895, os irmãos Auguste e Louis Lumiere, na França, haviam aperfeiçoado o kinetoscópio inventado por Thomas Edson, nos Estados Unidos, e apresentado o cinematógrafo, com imagens em movimento geradas de modo analógico em película.

Uma experiência pioneira de tele-educação foi conduzida pela Universidade de Wisconsin, nos Estados Unidos, com a transmissão de teleconferências ainda em 1958 (BARRETO, 2008). No Brasil, o Código Brasileiro de Telecomunicações, de 1967, determinara a existência de emissoras e programas educativos em televisão, com tempo obrigatório e gratuito inclusive para emissoras comerciais, conforme regulamentação firmada pelo Ministério das Comunicações. Na década seguinte, criou-se Centro Brasileiro de Televisão Educativa (mais tarde TVE e hoje TV Brasil), com o entendimento de que essa mídia deveria ser um instrumento de universalização, contextualização e inovação da educação no país. É no âmbito da TVE que se lança, ainda na década de 1960, a programação da Universidade de Cultura Popular, declarada de utilidade pública e tida como uma das primeiras iniciativas na área.

O formato e a linguagem iniciais da programação que se estabeleceria como parâmetro de tele-educação, no entanto, reproduziam o padrão de ensino presencial, centrado na palavra e na imagem do professor ou de um ator que interpretasse o personagem. Um modelo de comunicação educativa apontando como mais apropriado à mídia televisiva no país nasceria em torno dos telecursos. Apesar de experiências nesse sentido datarem do início da década de 1960, com a criação da Fundação João Batista do Amaral, mantenedora da TV Rio, e também pela TV Continental, elas ganharam real projeção a partir do surgimento das emissoras públicas de televisão do Rio de Janeiro (a já mencionada TVE) e de São Paulo, a TV Cultura, ligada à Fundação Padre Anchieta. Foi lançado, por exemplo, o “Projeto Saci”, capitaneado pelo MEC e que transmitia aulas de ensino básico para municípios do Rio Grande do Norte por meio de satélites do Instituto Nacional de Pesquisas Especiais (Inpe), além da série educativa “João da Silva”, da TV Cultura, que empregava fórmula narrativa baseada em enredo de telenovelas para contextualizar o conteúdo orientado por pedagogos e educadores (BARRETO, 2008).

Esse formato mais contextualizado de tele-educação consagrou-se no país a partir do lançamento do Telecurso 2º Grau, pelas fundações Roberto Marinho e Padre Anchieta, no final da década de 1970, programa que continua no ar com várias versões (como Telecurso 2000, Telecurso Tec e, mais recentemente, em 2008, o Novo Telecurso) e audiência semanal estimada em sete milhões de espectadores. Em 1996, foi ao ar a TV Escola, liderada pelo Ministério da Educação, e, um ano mais tarde, o canal Futura, também da Fundação Roberto Marinho, dedicado à educação, transmitido em TV por assinatura e captado também por antena parabólica.

A profissionalização do segmento é crescente, com espaço cada vez maior também para produções de grupos acadêmicos e independentes, sobretudo na forma de documentários e vídeo-reportagens voltados à produção colaborativa e comunitária, com chamada pública pela TV Brasil. Para além do formato bem-sucedido dos telecursos, as tendências de uso de televisão em programas de educação a distância parecem abranger, atualmente, outros três modelos principais: a) programas de treinamento empresarial, que empregam recursos audiovisuais por meio de sistemas fechados e canais corporativos de televisão (LEE; OWENS, 2004); b) programas acadêmicos que combinam o uso de plataformas na internet, como os LMS, à transmissão de aulas em sistemas de webcast ou por meio de canais educativos ou comunitários; e c) programas de audiência aberta, voltados a públicos difusos e heterogêneos, por meio de transmissão de palestras, conferências ou conteúdos seriados de cunho educacional. Vale notar que a emergência e as implicações do que tem sido chamado de “cibercultura” (LEVY, 1999) fazem com que esses modelos se hibridizem, numa convergência que vai além dos aspectos físicos e tecnológicos, influenciando diretamente também a forma de se produzir e assistir à televisão e favorecendo a colaboração e a interação dos atores envolvidos nesses processos.

Universidades na televisão digital

Nos últimos anos, com o lançamento da televisão digital no Brasil, começa a esboçar-se, ainda que timidamente, a inclusão de formatos de conteúdo interativo na programação educativa. A Fundação Padre Anchieta, em parceria com a Secretaria Estadual de Ensino Superior de São Paulo, lançou em 2008 a Universidade Virtual do Estado de São Paulo, que veiculará telecursos de ensino superior em cursos de licenciatura para formação de professores, com previsão de recursos interativos em médio prazo (AGÊNCIA FAPESP, 2008). A TV Escola também realiza experiências com interatividade aplicada a conteúdos de educação não-formal (SILVA et al., 2004), ainda que não haja um modelo consolidado para essa transição. Aplicações educativas de televisão digital interativas são tratadas, entre outros, por Souza Filho et al. (2004), a partir de um conjunto de pesquisas mantidas na área. Há que se considerar, no entanto, algumas especificidades das aplicações voltadas à comunicação e à educação em âmbito universitário.

O primeiro canal brasileiro de televisão digital universitária foi concedido para a Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação (FAAC) da Universidade Estadual Paulista (Unesp), no campus de Bauru, em 2007, associado a um programa de Mestrado Profissional igualmente pioneiro no país. Há um Laboratório Experimental de TV Digital na Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Campinas, ligado à sua rede de televisão universitária, envolvendo também o CPqD e a Unicamp. Na Universidade de São Paulo (USP), Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), PUC do Rio de Janeiro, Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), entre outras, também são conduzidas pesquisas diversas na área envolvendo grupos de engenharia, computação e comunicação.

Apesar de terem sido inicialmente excluídas, por critérios políticos, das concessões para transmissão digital no espectro de radiodifusão aberta, as emissoras de televisão universitária seriam o cenário natural para experimentação dessas novas tecnologias audiovisuais interativas, já que, além de estarem institucionalmente ligadas a centros produtores de inovação tecnológica, dispõem de estrutura e competência essenciais para a produção de conteúdo televisivo de qualidade. Discussões diversas nesse sentido têm acontecido, sobretudo, em torno da Associação Brasileira de Televisão Universitária (ABTU), em fóruns anuais, e na Rede IFES, que congrega universidades federais.

Como lembra Ramalho (2006), as redes universitárias de televisão são emissoras de caráter público, sem fins lucrativos, cuja programação deve refletir conteúdos educativos, culturais e de promoção da cidadania, na forma de uma atividade de extensão do ensino superior, possibilitando o acesso às informações e aos conhecimentos produzidos pela instituição. Conforme a Carta de Princípios elaborada pela ABTU, essas emissoras têm um “compromisso com a produção de conteúdo voltado para a educação, a promoção da cultura e do desenvolvimento regional e prestação de serviços, constituindo-se também num espaço para a pesquisa e experimentação de novas linguagens, formatos e narrativas” (ABTU[1], 2007 apud RAMALHO, 2006, p.38). Na prática, porém, tem sido a internet o espaço mais propício a essas formas de experimentação de novas linguagens, formatos e narrativas, em função da própria facilidade de acesso e menores exigências técnicas de produção. Talvez por isso, parece haver uma lacuna entre o modelo de programação educativa que se consolidou nas emissoras educativas e universitárias no Brasil e as demais iniciativas de educação a distância baseadas em conteúdos audiovisuais. Entende-se, pelas próprias circunstâncias de fruição da mídia, que a televisão de uso predominantemente coletivo serviria a uma aprendizagem mais informal, mesclando educação, comunicação e entretenimento (CHORIANOPOULOS; LEKAKOS, 2007) enquanto os computadores de uso pessoal seriam mais propícios a práticas formais de educação.

No final da década de 1990, a maior parte dos modelos de conteúdo educativo audiovisual utilizados para EAD baseava-se no conceito de tele-teaching, com produção centrada em formatos instrucionistas. Essa modalidade é usada geralmente para transmissão de aulas convencionais, através do vídeo, da televisão, do computador e, mais recentemente, do telefone celular de terceira geração. Essas aplicações se popularizaram a partir dos anos 1980 com a reprodução em VHS e CD-Room, transmissão por radiodifusão, vídeo-conferência, redes de computadores internas ou conectadas por banda larga à internet, geralmente para veiculação direta de vídeo capturado em aulas, palestras e seminários. O VHS e, mais tarde, o CD-Room, por não permitirem uma interatividade dialógica real, acabaram substituídos pelos sistemas de vídeo-conferência, lançados a partir de tecnologia de transmissão simultânea de áudio e vídeo em tempo real desenvolvida pela AT&T, em 1967.

No Brasil, a educação televisiva por vídeo-conferência foi estudada, entre outros, por Cruz (2003), que enxergou novas questões acerca do que se chamou de “midiatização da sala da aula” e da interferência de fatores técnicos decorrentes da interação audiovisual em tempo real entre professores e alunos instalados em auditórios remotos. Nota-se que as dinâmicas de aula nessa modalidade não diferem muito das exposições presenciais, adaptadas a partir da reunião de conteúdos extras representados na transmissão por meio de slides e câmeras de documentos. As transmissões aprimoraram-se com as técnicas de compressão de vídeo, com algoritmos de codificação e decodificação de sinais digitais capazes de reduzir o tamanho dos arquivos digitais. Na internet, experiências de tele-teaching proliferaram com sistemas multimídia e interativos (NEUMANN; RENNECKE; SCHILL., 1997) e aplicações colaborativas com sincronismo para transmissão de mídias e dados, incluindo animações e simulações de alta precisão (HILT; GEYER, 1997).

Um fator que limita as aplicações educativas da tecnologia de televisão digital é a política de regulamentação que mantém praticamente excluídas do espectro de radiodifusão as emissoras educativas, comunitárias e universitárias, entre outras com programação voltada exclusiva ou prioritariamente a conteúdos de apoio à aprendizagem e à divulgação científica e cultural, atualmente abrigadas no serviço de cabodifusão, contratado mediante pagamento de assinatura e de alcance limitado. Há no país, segundo a ABTU, cerca de 120 emissoras universitárias de televisão, a maioria regulamentada a partir da Lei 8.977, de janeiro de 1995, a chamada “Lei da Cabodifusão”, outras operando em canais de VHF e UHF, via satélite, internet e em circuitos fechados.

Além delas, porém, deve-se considerar, nas proposições deste trabalho, um número ainda desconhecido de grupos de estudantes e professores universitários que, de alguma forma, aplicam tecnologias audiovisuais interativas para produção de conteúdo a ser potencialmente veiculado por meio de sistema de televisão digital. Nesse sentido, os recursos plenos de interatividade permitiriam que essas emissoras e grupos, de forma integrada, adotassem a participação dos membros da comunidade acadêmica na concepção, produção e veiculação de programas, inclusive com integração à internet e recepção por dispositivos portáteis.

A televisão digital aplicada ao contexto educativo, seja em nível médio, profissionalizante ou universitário, promete dar um passo além, permitindo, em diferentes níveis de interatividade, serviços como: imagens de alta definição; seleção de conteúdo optativo; votações, testes e consultas; consulta a guia de programação; navegação por áreas de conteúdo; personalização de interface; submissão de vídeo pelo usuário; integração com a internet; envio de mensagem multimídia; acesso multilinear ao conteúdo; pausar e armazenar vídeos transmitidos; comprar produtos associados ao conteúdo, entre outros formatos de interação (GAWLINSKY, 2003; BECKER; MONTEZ, 2004).

As estratégias sobre como, exatamente, associar, combinar, vincular, sincronizar e apresentar de forma dinâmica, interativa e organizada essa variadade de conteúdos a serem transmitidos por meio da televisão digital permanecem abertas à discussão. Alguns estudos indicam, por exemplo, que conteúdos que priorizam entretenimento e comunicação tendem a ser considerados como âncoras na composição de programas, tendo a eles associados aplicações e conteúdos de apelo mais instrumental, com oferta de informações ou transações de dados de interesse mais específico (LIVADITI et al., 2003). Outros, baseados em análise de comportamento da audiência, constatam, porém, que a experiência interativa real dos telespectadores de sistemas de televisão digital ainda limita-se a evitar anúncios comerciais e consultar guias com opções de programação em seqüência ao conteúdo que estão assistindo (DARNELL, 2007). Também aponta-se  que a forma de se assistir televisão, mesmo quando se oferecem recursos interativos, permanece mais como uma atividade social e de lazer mantida em família do que uma atividade de interesse individual e aplicada à solução de necessidade específicas, em situações de trabalho, por exemplo (ERONEN, 2005).

No contexto educativo, considerando parte dessas indicações, é possível pensar em documentários, grandes reportagens, gincanas de auditório (game-show), além de versões inovadoras das tradicionais vídeo-aulas, empregados como conteúdos-pivô de uma grande programação mais heterogênea, de interesse educativo geral, aos quais estariam vinculados programas volantes de informação e serviço, conforme interesses mais específicos oriundos das comunidades de aprendizagem abrigadas em seu entorno, considerando os limites de saturação de tempo e espaço próprios às características de fruição televisiva. A especificação dessas estruturas de conteúdo depende, porém, de estudos diversos de modelagem e experimentação, que devem, por sua vez, basear-se em cenários de interação previstos com o avanço dos sistemas tecnológicos de transmissão, recepção e retorno de mídias e dados por meio de plataformas de televisão digital.

Sistemas tecnológicos e cenários de interação

Ao caracterizar-se essas inovações é preciso diferenciar o que tem sido considerado genericamente como televisão digital das demais tecnologias televisivas baseadas na codificação de sinais binários – a partir de combinações dos dígitos 0 e 1, formando bits de informação – que incluem Discos de Vídeo Digital (DVD), a televisão transmitida por internet, ou IPTV, bem como os sistemas de transmissão via satélite, cabo e linha telefônica. Sem entrar nas especificidades de cada uma dessas plataformas, este trabalho emprega o termo televisão digital em referência aos sistemas de transmissão de conteúdo audiovisual e de dados codificados digitalmente e veiculados por via terrestre através de antenas geradoras e retransmissoras do sinal de radiodifusão, com possível associação a um canal de retorno constante e de alta velocidade.

Essa plataforma de televisão digital já está presente em diversos países desde o final da década passada. Na Inglaterra, as transmissões começaram em novembro de 1998 e, em três anos, já alcançavam cinco milhões de residências (SANDBANK, 2001). No Brasil, ela começou a ser implantada em 2008, após processo de estudo e regulamentação – ainda em curso – no qual foram examinados e discutidos aspectos técnicos, políticos e econômicos referentes aos principais sistemas internacionais de transmissão (CPqD, 2002a, 2002b, 2002c, 2005a, 2005b). São eles: o europeu Digital Vídeo Broadcasting, ou DVB; o norte-americano, organizado pelo Advanced Television Systems Committee, ou ATSC; e o japonês Integrated Services Digital Broadcasting, ou ISDB, incluindo seus respectivos middlewares, respectivamente: Multimedia Home Plataform (MHP), DTV Application Software Environment (DASE) e Association of Radio Industries and Businesses (ARIB). A busca de compatibilidade entre padrões levou ao desenvolvimento do Generic Event Service Middleware (GEM) e da Advanced Common Application Platform (ACAP). Sistemas de televisão digital a cabo usam a Open Cable Application Platform (OCAP).

A diversidade de dispositivos de codificação e padrões de transporte de informações audiovisuais e sincronismo de dados motivou, no Brasil, uma série de pesquisas conduzidas por universidades e centros de pesquisa com resultados divulgados sobretudo em torno do Fórum Brasileiro de Televisão Digital (BRENNAND; LEMOS, 2007). O Ministério das Comunicações, seguindo critérios tecnológicos e comerciais, optou pela adoção de um Sistema Brasileiro de Televisão Digital (SBTVD), com características próprias, tendo como base a arquitetura do ISDB japonês e com adaptações na adoção do padrão de compressão de vídeo MPEG-4, em vez de MPEG-2, e no desenvolvimento do middleware Ginga por grupos de pesquisa nacionais.

Do ponto de vista das aplicações educacionais a serem geradas e transmitidas por meio de televisão digital, é justamente esse middleware o componente mais importante a ser considerado em torno do sistema, já que ele interpreta a linguagem declarativa e procedural usada para a codificação das funções interativas a serem veiculadas em sincronismo às mídias audiovisuais. Para tanto, o Ginga dispõe de duas Interfaces de Programação de Aplicativos (API, na sigla em inglês) – uma responsável pela codificação declarativa, em NCL (SOARES; RODRIGUES; MORENO, 2007), e outra procedural, baseada em JAVA™™ (SOUZA FILHO; LEITE; BATISTA, 2007) – projetadas de forma a tornar suas aplicações compatíveis com os demais padrões internacionais, permitindo a reprodução de conteúdos interativos gerados para sistemas que não o SBTVD.

Os aspectos mais problemáticos relacionados às perspectivas de uso educativo da televisão digital no Brasil referem-se, no entanto, à ausência de definição – e mesmo de uma discussão pública consistente – acerca da implantação de um canal de retorno ou, como também é chamado, de interação, o que possibilitaria a participação dos telespectadores na programação e, em última instância, a completa integração da televisão à internet, via cabo, rede telefônica ou Wi-Max, por exemplo. Em nível de interatividade parcial ou local, com emprego de linguagem NCL associada a padrões de metadados XML, é possível a reprodução e exibição de conteúdos multilineares de forma interligada a mídias complementares, que ilustrem, exemplifiquem, aprofundem ou repercutam o assunto abordado. Em nível mais amplo, permite-se acesso a servidores compartilhados de geração de programação, com oferta de conteúdos sob demanda para montagem de grades personalizadas conforme os interesses de cada comunidade acadêmica, além de serviços de comércio eletrônico e consulta a agenda de eventos.

Trazendo a reboque o debate nacional sobre regulamentação, a rápida evolução tecnológica dos sistemas de integração entre internet e televisão permite traçar cenários diversos para a concepção de formas avançadas de interação com conteúdos e serviços por meio da televisão digital. Essas possibilidades acompanham a evolução dos dispositivos computacionais e dos protocolos que permitem o fluxo de dados audiovisuais em tempo real e bi-direcionados, capazes de mediar intercâmbios com uso de servidores remotos de vídeos e aplicações conectados ao televisor por meio de redes de internet. Essas funcionalidades implicam combinações de protocolos de conexão já em uso na rede mundial de computadores (STIENSTRA, 2006) e que começam a ser integrados aos set-top-boxes ou diretamente na nova geração de televisores, tais como Real Time Streaming Protocol (RTSP Server), Session Initiation Protocol (SIP) e Internet Protocol Television (IPTV), já usados em sistemas de vídeo sob-demanda e vídeo-conferência. O propósito dessa combinação é fazer com que ambos os lados da comunicação possam atuar, ao mesmo tempo, como clientes e servidores, enviando e recebendo informação em tempo real.

Um exemplo de processo sistematizado para a oferta de serviços interativos é descrito em uma patente registrada nos Estados Unidos por Hersent (2008), de forma a especificar um método baseado em etapas de processamento para o intercâmbio de sinais audiovisuais e aplicações de dados entre um servidor remoto e o módulo de multiplexação da rede de televisão, de forma a converter comandos do usuário em mensagens transmitidas de volta ao servidor de aplicações e, novamente então, enviar respostas conforme os comandos específicos acionados pelo tele-interator. Na prática, o método permite acessar, por meio do televisor, serviços interativos disponíveis na internet, tais como mapas, bibliotecas ou chats de voz. De fato, grande parte dos serviços e conteúdos interativos que começam a ser oferecidos a usuários de telefonia celular de terceira geração não pode ser “lida” diretamente por um televisor, ainda que esteja ligado a uma rede digital por meio de um set-top-box ou outra unidade de processamento computacional. Aponta-se, no entanto, para uma tendência convergente em relação às possibilidades de comunicação simétrica (servidor/cliente) e com interatividade em tempo real considerando não apenas os eventos que ocorrem no âmbito do próprio canal midiático, mas também aqueles ocasionados pela ação e reação do tele-interator.

Uma solução interessante de provimento de infraestrutura de banda para viabilizar cenários de interação em televisão digital foi proposta por Batista et al. (2007), no âmbito do projeto de desenvolvimento do SBTVD, com a proposta de uma arquitetura denominada TV Grid, que explora faixas não utilizadas da rede de radiodifusão para envio e execução de aplicações ao receptor de televisão do usuário, que enviaria mensagens de volta à emissora por meio de um canal de retorno de internet banda larga.

Para ilustrar os esquemas que se visualizam a partir das possibilidades abertas para a interação do público com conteúdos educativos de televisão digital interativa, foi elaborada, no âmbito desta pesquisa exploratória, uma série de mapas conceituais que procuram traçar quatro cenários evolutivos sucessivos, representando diferentes fases de implantação da interatividade aplicada à fruição de vídeo-aulas e à participação da comunidade acadêmica em um ambiente de vídeo-fórum, por meio da submissão colaborativa de vídeos ao sistema. Esses cenários representam quatro distintos estágios de interação considerando funcionalidades tecnológicas descritas na literatura consultada.

Na primeira fase, que coincide com o estágio atual dos serviços de televisão digital terrestre disponíveis no Brasil, o aluno o tele-interator tem como interação possível a seleção da programação transmitida a partir do conteúdo de vídeo e dados disponibilizado pela central de produção e recebidos por meio de um set-top-box de primeira geração e acionados via controle remoto. Sua participação por meio da submissão de conteúdos requer o uso de um microcomputador convencional para a gravação e edição de vídeo, com conexão à internet para seu envio à central de produções, a quem cabe a inserção (ou não) deste material na programação televisiva.

Figura 4. Fases 1 e 2 do modelo de cenários do processo interativo para televisão digital em educação

Vale notar que esse tipo de relação, chamada de interatividade de duas telas, é comumente adotado por programas de esportes ou entretenimento em que o telespectador é convidado a usar outro meio que não a televisão (como o computador, o telefone celular ou mesmo o correio postal) para enviar mensagens e, assim, interagir com a programação. Um uso interessante desse sistema envolve, por exemplo, os chamados Serviços de Mensagem Multimídia (MMS, na sigla em inglês) para envio de vídeos ou imagens pessoais de participação. Já na segunda fase ou cenário de interação aqui mapeado, há um canal de retorno parcial conectando o sistema de televisão à internet, porém de forma intermitente. Esse modelo permite que o tele-interator participe de votações em momentos específicos da programação e, eventualmente, acesse páginas da internet por meio da tela do televisor, conforme ilustra a Figura 4.

A terceira fase de interatividade deve caracterizar-se pela permanência do canal de retorno, de forma que as atividades de participação por votação, entre outras formas de envio de informações pelo tele-interator, bem como seu acesso à internet por meio do televisor possam ser feitas a qualquer momento. A quarta fase proposta consiste numa evolução dos dispositivos computacionais que servem à intermediação dessas atividades, de forma que possam dispor de aplicativos operacionais mais complexos, e também pela disposição de protocolos de conexão propícios para a transmissão bi-direcional de fluxos audiovisuais e de dados. Essas possibilidades devem advir da evolução do set-top-box ou da inclusão direta de placas computacionais nos televisores para que operem, por exemplo, recursos e funcionalidades de gravação e edição de vídeo, por meio de aplicativos especificamente desenvolvidos e da instalação de drivers para a acoplagem de câmeras e microfones diretamente ao televisor. Essa fase de interação plena, no sentido em que possibilita uma participação e colaboração real do usuário na produção e transmissão de vídeos, depende, igualmente, da regulamentação de novas formas de conexão com acesso a um servidor de vídeos em tempo real, por meio de RTSP, por exemplo, conforme ilustra a Figura 5.

Dispensa-se-ia, nesta quarta fase, o uso do computador convencional para o envio de vídeos ao sistema, tornando a experiência interativa mais versátil, com a concentração de operações em um ambiente de consumo midiático mais social e integrado. Ressalte-se que tal aplicação requer recursos de acessibilidade e interfaces usuário-televisor especialmente propícias para a manipulação de vídeos e a inserção de metadados sem uso dos dispositivos convencionais ligados ao computador (mouse e teclado), abrindo espaço para a utilização experimental de sistemas de baseados no uso de joystick, interfaces de voz ou até sensores de movimento, a princípio considerados mais intuitivos e de mais adequada usabilidade para esses fins, a exemplo de vídeo-games de última geração.

Figura 5. Fases 3 e 4 do modelo de cenários do processo interativo para televisão digital em educação


Tem-se, com isso, uma interação efetivamente participativa, que caracterizaria uma nova fase da televisão, uma espécie de TV 2.0, em analogia à atual profusão de softwares que rodam diretamente nos navegadores de internet, transformando a experiência de simples visualização e seleção de conteúdos em uma atividade de prestação de serviços em conformidade com as necessidades e interesses de grupos de usuários, com aplicações especialmente propícias à atuação das comunidades televisivas de aprendizagem. É nesse estágio mais avançado do sistema que se concebe a aplicação efetiva do modelo proposto neste trabalho, sobretudo para o funcionamento do vídeo-fórum previsto na experiência de prototipagem.

Esses cenários também podem ser especificados de modo a contemplar, ainda, mecanismos para a integração de conteúdos e serviços com dispositivos móveis, como os telefones celulares, e ambientes virtuais de aprendizagem já disponíveis e em operação através da internet, baseados em Learning Content Management System (LCMS), de forma a fazer convergirem-se diferentes plataformas empregadas à educação a distância em âmbito universitário.


[1] ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE TELEVISÃO UNIVERSITÁRIA.  Carta de princípios.  Item 7.  2007.

Written by Francisco Rolfsen Belda

22/09/2010 às 04:37

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