Televisão Digital Educativa

Modelagem de Conteúdos Interativos | Prof. Dr. Francisco Rolfsen Belda

Validação por protótipo

leave a comment »

O modelo proposto pretende fornecer referências que apóiem a produção de conteúdos educativos por comunidades e redes de aprendizagem no desenvolvimento de programas interativos de televisão digital a serem veiculados por meio de emissoras educativas e universitárias. Considerando essa perspectiva de utilização, foi proposta uma experiência de validação com objetivo de testar sua aplicabilidade no desenvolvimento de um protótipo de programa educativo de televisão digital por equipes não-especializadas, empregando-se tecnologias computacionais compatíveis com o Sistema Brasileiro de Televisão Digital com estrutura de conteúdos baseada nas especificações deste modelo. Os critérios de análise do modelo, bem como as etapas de concepção, fundamentação, produção e finalização dessa experiência de validação, são descritos no presente capítulo.

A análise preliminar de consistência do modelo proposto foi realizada por meio de etapas sucessivas, de acordo com um modelo cronológico em espiral, consistindo em diversas iterações parcialmente coincidentes com o trabalho de desenvolvimento do modelo em si, desde suas representações preliminares, e de sua validação. Desta forma, estabeleceu-se uma dinâmica de contínuo aprimoramento dos elementos, sentenças, quadros, mapas e demais artifícios utilizados.

Tal possibilidade de aprimoramento tende a ser favorecida pela flexibilidade do uso de mapas conceituais, que permitem alterações significativas na estrutura de modelagem com adequação instantânea das demais representações gráficas de conexões associadas ao elemento alterado. O modelo apresentado é, assim, produto de revisões que consideraram quesitos de análise crítica aqui descritos, bem como aprimoramentos pontuais que se mostraram necessários a partir da atividade de prototipagem.

Deve-se considerar que a utilização de notações de mais alto grau de formalização permitiria que parte dessas análises fosse realizada automaticamente, com emprego de ferramentas associadas a banco de dados e conferência de códigos derivados de estruturas de conteúdo, de modo a aferir a consistência do sistema, ou mesmo compará-lo a outros a partir de critérios e métricas padronizadas de contraste. O uso de esquemas genéricos de representação, tais como os mapas conceituais, ainda que favoreçam a consulta do modelo por um público mais amplo e heterogêneo, têm como contrapartida a ausência de métodos automáticos de inspeção formal com vistas à sua validação, que passa a depender de operações mais subjetivas de checagem e teste.

Uma análise retórica baseada em critérios lógicos permitiu considerar aspectos de concisão (por exemplo, a partir da não-multiplicação de termos comuns em um mesmo esquema; da não-duplicidade de informações em esquemas paralelos; e do sintetismo das representações), coerência (uso suficiente de vocabulário comum à literatura e outros modelos de referência; não-contradição entre suas regras internas), consistência (exeqüibilidade das operações previstas na estrutura do modelo); precisão (efetividade das soluções baseadas em suas predições), e clareza (simplicidade de representações; inteligibilidade dos elementos do modelo de suas inter-relações).

Somou-se a essa análise retórica um exame operacional com emprego de funções computacionais disponibilizadas pela própria ferramenta IHMC CMapTools por meio de exportação de extratos conceituais e performance de análises comparativas a partir dos mapas formulados. Os extratos conceituais são gerados com o recurso de visualização de listas, que representam, de forma textual e tabular, as relações estruturais dos elementos que compõem o modelo. Essas listas podem ser geradas seletivamente com base nos conceitos, nas proposições, nas frases de ligação e proporcionam uma visão global, sumarizada e hierarquizada do conjunto de notações (outline do CMap).

Essas análises preliminares, apesar de não constituírem o objeto central do processo de validação proposto e a ser descrito a seguir, permitiram aferir a consistência interna das conexões estabelecidas entre os elementos modelados, de forma a amparar sua adoação como instrumento de referência para práticas colaborativas de produção de conteúdos educativos de televisão digital. Considerando como base de referência os critérios estabelecidos por Benedictis, Amaral e Rozenfeld (2004) para avaliação comparativa de ferramentas de modelagem, pode-se reconhecer, a partir da análise do modelo baseado em mapas conceituais, que essa técnica atende aos critérios elencados no Quadro 15.

Com base nesse mesmo estudo comparativo de referência, pode-se apontar alguns critérios que não são satisfatoriamente atendidos pela ferramenta usada na modelagem relatada, tais como: integração com outros softwares, simulação, inserção de atributos de objetos, personalização dos métodos empregados por meio da ferramenta e possibilidade de representação dos conhecimentos retratadoss segundo diversos métodos de modelagem.

GRUPO CRITÉRIOS SATISFEITOS PELA MODELAGEM ADOTADA
Construção Possibilidade de emprego de um objeto em diversos modelos
Criação de novos objetos a partir da ferramenta de modelagem
Ajuste do objeto visual de modelagem ao respectivo texto
Uso de conectores automáticos entre elementos do modelo
Checagem de consistência de nomes usados nas descrições
Uso de interface gráfica para composição visual do modelo
Recursos de edição para formatação de elementos do modelo
Apresentação Possibilidade de ajuste de objetos para enquadrar na página
Possibilidade de acesso e navegação pelo modelo via internet
Qualidade de impressão das figuras geradas pela modelagem
Gerenciamento Controle de versões dos documentos que compõem o modelo
Controle de acesso e modificação sobre esses documentos
Análise Checagem de consistência das representações formuladas
Busca por conteúdos textuais específicos entre os elementos
Lista de relacionamentos entre conceitos e conectores
Comparação de modelos com base em critérios pré-definidos
Outros Custo de aquisição da ferramenta de modelagem empregada

Quadro 15. Análise da ferramenta de modelagem adotada[1]

Prototipagem: testes preliminares e objetivos

Técnicas de validação de modelos têm sido propostas e aprimoradas no âmbito da engenharia de software como parte do processo mais amplo de teste e validação de sistemas, geralmente associado à validação dos requisitos elaborados como especificação preliminar do software. Sua importância estratégica decorre de elas potencialmente revelarem, antecipadamente, eventuais inconsistências, inadequações ou imprecisões capazes de comprometer o desenvolvimento final de um sistema. Nesse contexto, Kotonya e Sommerville (1998) tratam a validação de modelos como um aspecto essencial do processo geral de validação de ferramentas, e apontam a validação por prototipagem como uma das técnicas que podem ser utilizadas para se testar o uso prático de um sistema modelado. Entre os objetivos dessa prática os autores citam: a) demonstrar a presença das informações necessárias e a ausência de conflitos ou incoerências; b) oferecer consistência no uso de nomenclaturas e referências; c) representar de forma precisa os requisitos apontados.

Escalona e Koch (2004, p.7) definem a validação por protótipo como uma “técnica que consiste no desenvolvimento de ferramentas baseadas em uma especificação de requisitos”, considerando a influência da interpretação do desenvolvedor sobre os requisitos modelados para o sistema. Segundo eles, protótipos construídos com a finalidade de validação representam apenas uma implantação parcial do sistema modelado, embora devam propiciar uma visão suficientemente global da experiência do usuário com a sua utilização. Os autores consideram esta uma ferramenta válida para se experimentar o contexto de aplicação de um modelo especificado. “Para usar essa técnica, o usuário precisa entender que o que ele está observando é apenas um protótipo e não o sistema final”.

Há, no entanto, diferentes níveis sobre o que se considera como um protótipo, incluindo desde desenhos manuais que representam uma seqüência de eventos associada a uma série de transformações em telas de uma interface até versões avançadas e com alta similaridade com a versão final do sistema. Nesse sentido, é possível diferir o tipo de protótipo usado para teste e validação de modelos do chamado protótipo de elicitação, usado para ilustrar a imagem de um sistema para seus futuros stakeholders. Para que seja considerada uma técnica de validação para a modelagem de aplicações computacionais, o protótipo deve ser dotado de características funcionais ativas e permitir ao usuário uma experiência real de navegação e o uso prático do sistema, de modo a revelar problemas que devem aparecer durante a fase de teste, a serem corrigidos antes da aplicação definitiva do modelo.

Em etapas iniciais da pesquisa, ainda antes da elaboração do modelo estrutural de conteúdos proposto, foi realizada uma primeira experiência piloto com o desenvolvimento e avaliação de um protótipo rudimentar de programação educativa e interativa de televisão digital[2], que contribuiu no sentido de se testar dificuldades que pudessem vir a ser em parte sanadas pelo modelo. Este trabalho preliminar de prototipagem usou como ferramenta de modelagem o software Microsoft PowerPoint 2003 e consiste em uma sucessão de telas compostas por imagens estáticas representando vídeos, além de textos e outros ícones, que, apresentada em seqüência continua, simula cenários de interação em uma vídeo-aula de televisão digital, conforme ilustrado nas Figuras 17 e 18.

A experiência de navegação nesse protótipo foi avaliada por meio de testes de usabilidade, de forma a verificar até que ponto os requisitos de projeto traçados haviam sido atendidos, considerando o nível de dificuldade de cumprimento de tarefas pelo usuário e identificando efeitos da interface sobre ele, de forma a mapear problemas e indicar soluções. No contexto dessa experiência, foram utilizados três métodos para avaliação da interface: think aloudcognitive walkthrough (ou percurso cognitivo) e avaliação heurística (DIX et al., 2004).

Figura 17. Tela de seleção de aula da versão premilinar do protótipo

Figura 18.  Tela de acesso a conteúdo complementar da versão premilinar do protótipo

O primeiro consistiu em registrar uma descrição oral de dois usuários sobre sua experiência (pensamento e ação) no momento da navegação no protótipo, com gravação de áudio e anotações de impressões do avaliador durante a execução. Na segunda avaliação, com base no método de percurso cognitivo, os avaliadores simularam um usuário típico ao percorrer a interface e executar tarefas típicas, a partir de uma lista determinada de tarefas e ações esperadas para o acesso e a exibição de conteúdos.  A avaliação heurística empregou três especialistas (alunos da disciplina Interação Usuário-Computador do ICMC-USP) para verificar a conformidade do protótipo com princípios de usabilidade, a partir de um questionário com tópicos que abordam: visibilidade do status do sistema; relação entre o sistema e o mundo real; controle e liberdade do usuário; consistência e padrões; reconhecimento e prevenção de erros; ajuda para usuários reconhecerem, diagnosticarem e se recuperarem de erros; reconhecimento em vez de lembrança; flexibilidade e eficiência de uso; projeto estético e minimalista; ajuda e documentação; privacidade.

O conjunto dessas avaliações, assim como a prática dessa prototipagem preliminar, apontou problemas, falhas e dificuldades operacionais que contribuíram para o desenvolvimento das atividades de modelagem e prototipagem detalhadas nesta tese, especialmente no que se refere às seguintes percepções com relação à experiência dos usuários:

  • Espera-se a oferta constante e assíncrona de opção de retorno e acesso a conteúdos complementares, bem como a exibição de informações prévias sobre um conteúdo extra a ser possivelmente acionado para subsidiar a decisão do usuário de acessá-lo ou não, incluindo a distinção entre opção de acesso a um conteúdo extra e de acesso a um diretório de conteúdos extras;
  • Necessidade de seguidas confirmações sobre o interesse de acessar um conteúdo complementar pode desencorajar seu acionamento, assim como tendem a ser momentaneamente rejeitadas indicações para se buscar informações extras em outras mídias que não a própria interface de televisão;
  • Pode-se experimentar desorientação no percurso mesmo com a exibição constante de botões de seleção na forma de menu, o que leva usuários a requererem ajuda para navegação, um sumário de conteúdos que distinga conteúdos já assistidos ou a inserção de títulos ou cabeçalhos que os auxiliem na identificação das telas;
  • Espera-se que haja feedback do sistema em relação ao sucesso de uma ação performada pelo usuário, que o sistema relembre o usuário sobre funções interativas oferecidas previamente e que se permita a personalização de conteúdos de acordo com o interesse de cada usuário;
  • A padronização de comandos para acionamento de funções favorece a correta percepção das opções interativas: percebe-se que a associação do botão vermelho a “voltar” e do verde a “avançar” são intuitivas, que há mais familiaridade com botões de seleção (setas, menus) do que com botões de interação (cores e formatos) e que, em listas ordenadas, é preferível o uso de números ao uso de setas, cores e formatos como índice de acionamento de eventos.

Apesar de considerar esses apontamentos como diretrizes de aperfeiçoamento, os objetivos traçados para a validação do modelo proposto não contemplam uma avaliação definitiva do protótipo a ser apresentado neste capítulo, que simula um ambiente televisivo de aprendizagem com conteúdos alocados no interior de uma fábrica virtual interativa. Seu desenvolvimento teve por base o aprimoramento da experiência de prototipagem anteriormente relatada, a partir da aplicação do modelo estrutural de conteúdos como referência de organização e sistematização de objetos de mídia envolvidos na aplicação. O protótipo é, assim, um instrumento de validação do modelo que serviu de parâmetro para seu desenvolvimento, e não o objeto da avaliação em si.


[1] Análise baseada em critérios definidos por Benedictis, Amaral e Rozenfeld (2004).

[2] Essa prototipagem inicial é descrita no relatório “Solução interativa para EaD em TV Digital”, produzido em co-autoria com os pesquisadores Rodrigo Botelho e Marco Aurélio Graciotto e apresentado à disciplina de Interação Usuário-Computado no Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da Universidade de São Paulo (USP), sob orientação da Profª Drª Maria da Graça Campos Pimentel, em 2007.

Written by Francisco Rolfsen Belda

22/09/2010 às 05:55

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: